A cobertura vacinal infantil brasileira entrou em colapso na virada da década de 2010, em paralelo à ascensão do bolsonarismo. Este artigo parte de um fato cronológico — a queda atravessa três fases politicamente distintas: o pré-governo (até 2018), o governo Bolsonaro sem pandemia (2019) e o governo com pandemia (2020–2022) — para perguntar, em cada uma, por qual canal o bolsonarismo opera: pela demanda (a disposição das famílias a levar a criança ao posto) ou pela oferta (a capacidade instalada da atenção primária que aplica a vacina). Formulam-se três hipóteses, uma por fase: (a) no pré-governo, o bolsonarismo — uma disposição anti-institucional anterior a Bolsonaro — erodiu a vacinação pela demanda, sem afetar a oferta; (b) em 2019, o primeiro ano de governo teria desorganizado o SUS e atingido a vacina pela oferta (atenção básica, ESF); (c) na pandemia, o sinal do líder atingiu demanda e oferta simultaneamente. Combinando o painel municipal de coberturas (SI-PNI/DATASUS, 2012–2022) ao voto em Bolsonaro de 2018 (TSE), a covariáveis socioeconômicas e a seis indicadores independentes de oferta da atenção primária (e-Gestor, CNES, IEPS, FINBRA), estimam-se modelos de diferenças-em-diferenças com a Hepatite B ao nascer como controle negativo de demanda. Os resultados confirmam (a), refutam (b) na sua forma forte e qualificam (c) — "forma forte" porque, embora o financiamento federal de fato se contraia diferencialmente in 2019, a camada que entrega a vacina não recua e a queda não é mediada pela oferta. A hipótese de demanda do pré-governo sustenta-se: o gradiente abre-se já em 2018, concentra-se nas vacinas de retorno e poupa a dose de nascimento. A hipótese de desmantelamento de 2019 não se sustenta nas dimensões mensuradas: a cobertura da ESF e da atenção básica, a enfermagem da APS e o gasto em saúde não caem — em vários casos crescem — onde o bolsonarismo é mais forte, e a queda vacinal de 2019 sobrevive ao controle direto pela oferta, não sendo mediada por ela; a única exceção honesta são os agentes comunitários de saúde e as UBS por habitante, que recuam, mas sem o *timing* de 2019 e sem mediar a vacina. Na pandemia, enfim, o salto incide sobretudo sobre a dose de nascimento — assinatura de oferta e registro, não de hesitação. Reportam-se os três achados, inclusive a hipótese refutada: não confirmar também é resultado.